<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[A Vida de Quem Pensa Demais]]></title><description><![CDATA[A Vida de Quem Pensa Demais é uma newsletter semanal sobre a mente contemporânea — entre o trabalho e o tédio, a rotina e o silêncio.

Não é autoajuda, é só companhia no caos.]]></description><link>https://newsletter.mauricioackermann.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!DDwI!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffe77eaf5-f2ee-4b1c-b0eb-20b735f37fab_1024x1024.png</url><title>A Vida de Quem Pensa Demais</title><link>https://newsletter.mauricioackermann.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Thu, 09 Apr 2026 01:41:47 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://newsletter.mauricioackermann.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Mauricio Ackermann]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[avidadequempensademais@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[avidadequempensademais@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Mauricio Ackermann]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Mauricio Ackermann]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[avidadequempensademais@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[avidadequempensademais@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Mauricio Ackermann]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Edição #7: As conversas de fim de ano]]></title><description><![CDATA[Sobre o que a gente repete quando n&#227;o sabe muito bem o que dizer]]></description><link>https://newsletter.mauricioackermann.com/p/edicao-7-as-conversas-de-fim-de-ano</link><guid isPermaLink="false">https://newsletter.mauricioackermann.com/p/edicao-7-as-conversas-de-fim-de-ano</guid><dc:creator><![CDATA[Mauricio Ackermann]]></dc:creator><pubDate>Tue, 23 Dec 2025 13:58:28 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!DDwI!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffe77eaf5-f2ee-4b1c-b0eb-20b735f37fab_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Fiquei algumas semanas sem escrever. Tirei uns dias de f&#233;rias, desacelerei, fiquei mais quieto. &#192;s vezes, quando a rotina muda, o texto demora a voltar. N&#227;o por falta de assunto, mas porque a cabe&#231;a entra em outro ritmo. Talvez por isso essa edi&#231;&#227;o chegue agora, depois de alguns encontros, algumas mesas cheias e muitas conversas repetidas.</p><p>Todo fim de ano as conversas se repetem. N&#227;o porque as pessoas sejam iguais, mas porque o contexto pede. As mesas s&#227;o parecidas, as perguntas voltam, os coment&#225;rios circulam como se j&#225; estivessem ensaiados. &#8220;E o trabalho?&#8221;, &#8220;E a vida?&#8221;, &#8220;E os planos?&#8221;. A gente responde quase no autom&#225;tico, como quem j&#225; sabe o texto decorado.</p><p>Existe algo de curioso nisso. As conversas de fim de ano raramente s&#227;o profundas, mas tamb&#233;m n&#227;o s&#227;o vazias. Elas ocupam um lugar intermedi&#225;rio. Servem para marcar presen&#231;a, para dizer &#8220;estou aqui&#8221;, para criar um m&#237;nimo de conex&#227;o entre pessoas que, &#224;s vezes, j&#225; n&#227;o sabem muito bem como se encontrar.</p><p>No &#250;ltimo fim de semana vivi exatamente isso. Um encontro de amigos, daqueles que acontecem todo fim de ano, quase como um ritual. Um grupo heterog&#234;neo, pessoas em fases diferentes da vida, rotinas que j&#225; n&#227;o se cruzam tanto assim. As mesmas hist&#243;rias reaparecem, as mesmas lembran&#231;as s&#227;o contadas como se fossem novas. A gente ri nos mesmos pontos, corrige detalhes que j&#225; foram corrigidos outras vezes, completa a frase do outro antes de terminar. Muitas vezes &#233; justamente essa repeti&#231;&#227;o que sustenta a conex&#227;o. As mem&#243;rias compartilhadas viram um idioma comum, um jeito simples de manter juntos pessoas que, fora dali, talvez j&#225; n&#227;o tivessem tanto em comum.</p><p>E, ainda assim, existe um certo desgaste silencioso. N&#227;o das pessoas, nem do encontro em si, mas da repeti&#231;&#227;o inevit&#225;vel. De responder perguntas parecidas, de revisitar hist&#243;rias conhecidas, de atravessar caminhos j&#225; percorridos outras vezes. N&#227;o chega a ser inc&#244;modo, nem afasta. &#201; s&#243; a consci&#234;ncia tranquila de que algumas coisas se repetem porque continuam sendo um ponto de apoio, mesmo quando j&#225; n&#227;o surpreendem como antes.</p><p>Algumas perguntas v&#234;m carregadas de expectativa. Outras v&#234;m s&#243; por h&#225;bito. Nem sempre quem pergunta quer realmente saber, e nem sempre quem responde tem vontade de explicar. Ainda assim, a conversa acontece. Um coment&#225;rio puxa o outro, algu&#233;m ri, algu&#233;m discorda, algu&#233;m muda de assunto r&#225;pido demais. Existe um acordo silencioso de manter as coisas leves, mesmo quando o corpo pede um pouco de descanso.</p><p>Tamb&#233;m existem aquelas conversas boas, que surgem sem aviso. Um canto da sala, um copo na m&#227;o, duas pessoas que se afastam um pouco do barulho geral. De repente, algo real aparece. Uma confiss&#227;o pequena, uma lembran&#231;a antiga, uma frase que n&#227;o caberia em nenhum outro momento do ano. Essas conversas n&#227;o duram muito, mas compensam o resto.</p><p>As conversas de fim de ano t&#234;m esse ritmo estranho. Misturam afeto, repeti&#231;&#227;o, cansa&#231;o e uma esperan&#231;a discreta. A gente fala do que passou, mas sem entrar demais. Fala do que vem pela frente, mas sem muita convic&#231;&#227;o. &#201; como se todo mundo estivesse tentando aproveitar o encontro sem mexer em coisas sens&#237;veis demais.</p><p>E existem os sil&#234;ncios. Aqueles momentos em que ningu&#233;m sabe muito bem o que dizer, mas ningu&#233;m quer ir embora. O sil&#234;ncio constrangido vira coment&#225;rio sobre a comida, sobre o clima, sobre qualquer detalhe irrelevante. Nem todo sil&#234;ncio &#233; vazio. &#192;s vezes, &#233; s&#243; pausa.</p><p>No fundo, as conversas de fim de ano n&#227;o s&#227;o sobre respostas. S&#227;o sobre presen&#231;a. Sobre estar ali, mesmo sem grandes novidades, grandes conquistas ou grandes hist&#243;rias para contar. &#201; uma forma simples de continuar pertencendo, mesmo cansado, mesmo repetindo.</p><p>Talvez seja por isso que, apesar de tudo, essas conversas importam. Elas n&#227;o resolvem nada, n&#227;o esclarecem tudo, n&#227;o fecham ciclos. Mas criam um intervalo. Um momento em que a vida desacelera o suficiente para a gente se reconhecer uns nos outros, mesmo que seja pela en&#233;sima vez.</p><p>No fim, o que fica n&#227;o &#233; exatamente o que foi dito. &#201; o tom. O riso meio cansado. A hist&#243;ria repetida. A sensa&#231;&#227;o de que, por algumas horas, deu para estar junto sem precisar explicar demais quem a gente &#233; agora.</p><p>E talvez isso j&#225; seja suficiente.</p><div><hr></div><h3><strong>&#128279; Indica&#231;&#245;es da semana</strong></h3><p>&#127897;&#65039; Podcast -<a href="https://radionovelo.com.br/originais/apresenta/">R&#225;dio Novelo Apresenta</a><br>Hist&#243;rias bem apuradas e bem contadas, com ritmo e sil&#234;ncio. Ideal para ouvir com fone, sem fazer mais nada ao mesmo tempo.</p><p><strong>&#127911; Disco &#8211; CAJU, da Liniker</strong><br>Um disco que voltou a tocar por aqui. Can&#231;&#245;es que pedem menos pressa e mais aten&#231;&#227;o, &#243;timas para ouvir inteiro, sem pular faixa. Funciona bem como trilha para esse fim de ano mais cheio, mas tamb&#233;m mais quieto.</p><p><strong>&#9749; Caf&#233; da manh&#227; de domingo &#8211; <a href="https://www.instagram.com/mediterrainpadaria/">Mediterrain Padaria</a></strong><br>Um daqueles caf&#233;s que pedem domingo. Sem pressa, sem barulho, sem performance. Caf&#233; bem feito, comida simples e honesta, mesa ocupada por conversa tranquila ou sil&#234;ncio confort&#225;vel. Um lugar para come&#231;ar o dia devagar e lembrar que nem toda refei&#231;&#227;o precisa ser produtiva.</p><div><hr></div><h3><strong>&#9993;&#65039; Fechamento</strong></h3><p>Se esse texto te lembrou de alguma conversa que j&#225; aconteceu mais de uma vez, j&#225; valeu.<br>Se te fez perceber que at&#233; a repeti&#231;&#227;o pode carregar afeto, melhor ainda.<br>E se voc&#234; chegou at&#233; aqui, obrigado.<br>Nem toda boa conversa precisa ser nova para continuar valendo.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://newsletter.mauricioackermann.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://newsletter.mauricioackermann.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Edição #6: O pedaço que sempre falta]]></title><description><![CDATA[Morar fora &#233; aceitar que nenhum lugar completa tudo o que a gente &#233;]]></description><link>https://newsletter.mauricioackermann.com/p/edicao-6-o-pedaco-que-sempre-falta</link><guid isPermaLink="false">https://newsletter.mauricioackermann.com/p/edicao-6-o-pedaco-que-sempre-falta</guid><dc:creator><![CDATA[Mauricio Ackermann]]></dc:creator><pubDate>Sun, 23 Nov 2025 20:35:16 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!DDwI!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffe77eaf5-f2ee-4b1c-b0eb-20b735f37fab_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Nenhum lugar nos completa. Essa &#233; uma das primeiras verdades que a gente descobre depois de viver tempo demais longe de casa. &#201; como se cada cidade guardasse uma parte nossa e, onde quer que a gente esteja, exista sempre um peda&#231;o faltando.</p><p>Quando estou em Toronto, sinto um vazio discreto, mas constante. Falta o calor das pessoas, o improviso, o barulho familiar. Falta a conversa furada com desconhecidos, o toque, o jeito brasileiro de existir no mundo. Falta a cerveja na rua no copo americano, a risada alta, a espontaneidade que nasce sem esfor&#231;o. Toronto me d&#225; ordem, seguran&#231;a, sil&#234;ncio. Mas &#224;s vezes tudo isso pesa. &#192;s vezes eu queria s&#243; algu&#233;m puxando papo na fila do mercado ou um convite de &#250;ltima hora para uma cerveja em qualquer esquina.</p><p>Quando estou no Brasil, o vazio &#233; outro. Falta a tranquilidade de caminhar sem olhar para os lados o tempo todo. Falta a leveza de ser s&#243; eu, sem julgamento, sem disputa silenciosa. Falta aquela sensa&#231;&#227;o de que ningu&#233;m est&#225; tentando passar por cima de ningu&#233;m. Falta a cerveja no balc&#227;o do bar, sozinho, sem ningu&#233;m esperando nada de mim. Falta o anonimato confort&#225;vel que Toronto me d&#225;.</p><p>&#201; como se minha vida tivesse se dividido em dois mundos que n&#227;o conversam perfeitamente entre si. E, no processo, eu tamb&#233;m me dividi um pouco. Morar fora n&#227;o transforma ningu&#233;m em cidad&#227;o do mundo. Transforma em algu&#233;m que nunca se sente completamente inteiro em lugar nenhum. Sempre tem algo que fica de fora. Um cheiro, uma comida, um jeito de falar, uma forma de ser entendido sem precisar terminar a frase. Ou o oposto: um sil&#234;ncio, uma seguran&#231;a, uma calma que s&#243; existe do outro lado da fronteira.</p><p>Quando estou aqui, falta algo de l&#225;. Quando estou l&#225;, falta algo daqui. N&#227;o &#233; tristeza, n&#227;o &#233; saudade simples. &#201; s&#243; essa sensa&#231;&#227;o estranha de que sempre existe um lado da minha vida que fica esperando por mim. Uma parte que nunca viaja junto. Viver entre dois lugares faz isso. A gente aprende a aceitar que pertence aos dois e, ao mesmo tempo, n&#227;o pertence completamente a nenhum.</p><p>Morar fora te d&#225; muito, mas leva algo tamb&#233;m. Leva o conforto de uma identidade &#250;nica. Leva aquele senso simples de &#8220;eu sou daqui&#8221;. Em troca, devolve perspectiva, amplitude e uma saudade que nunca dorme. Eu n&#227;o sei se algum dia vou me sentir completo em um &#250;nico lugar. Mas estou entendendo que essa falta n&#227;o &#233; falha. &#201; consequ&#234;ncia. &#201; o eco dos lugares que me formaram, me dividiram e me ampliaram.</p><p>O peda&#231;o que falta n&#227;o &#233; aus&#234;ncia. &#201; mem&#243;ria. E, no fundo, &#233; o que me mant&#233;m inteiro.</p><div><hr></div><h3>&#9993;&#65039; Fechamento </h3><p>Se esse texto te lembrou de algum lugar que ainda mora em voc&#234;, j&#225; valeu. Se te fez entender melhor esse vazio que acompanha quem vive entre mundos, melhor ainda. E se voc&#234; chegou at&#233; aqui, obrigado. Pertencer &#233; dif&#237;cil, mas ler com calma tamb&#233;m &#233;.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://newsletter.mauricioackermann.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://newsletter.mauricioackermann.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Edição #5 — O homem adulto que ainda está aprendendo a ser adulto]]></title><description><![CDATA[Cresci, s&#243; esqueceram de me enviar o manual]]></description><link>https://newsletter.mauricioackermann.com/p/edicao-5-o-homem-adulto-que-ainda</link><guid isPermaLink="false">https://newsletter.mauricioackermann.com/p/edicao-5-o-homem-adulto-que-ainda</guid><dc:creator><![CDATA[Mauricio Ackermann]]></dc:creator><pubDate>Wed, 19 Nov 2025 20:39:42 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!DDwI!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffe77eaf5-f2ee-4b1c-b0eb-20b735f37fab_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Quando eu era mais novo, achava que ser adulto seria um estado final. Uma linha de chegada invis&#237;vel em que, num belo dia, eu acordaria entendendo como tudo funciona. Imaginava que os 30 e poucos eram uma idade est&#225;vel, uma fase em que eu teria respostas, convic&#231;&#245;es e jeitos certos de lidar com a vida.</p><p>Na pr&#225;tica, a vida adulta &#233; mais parecida com continuar apertando os bot&#245;es certos por acidente, torcendo para n&#227;o quebrar nada importante.</p><p>Ser adulto &#233; descobrir, na marra, que ningu&#233;m sabe o que est&#225; fazendo. Uns fingem melhor, outros t&#234;m mais planilhas, alguns tiveram pais que explicaram coisas b&#225;sicas na hora certa. O resto a gente aprende por tentativa e erro. Quase sempre erro.</p><p>Ainda estou descobrindo como ser um homem adulto. Aprendendo sobre dinheiro de um jeito pr&#225;tico, n&#227;o te&#243;rico. Sobre cuidar do corpo sem esperar que algu&#233;m diga o que fazer. Sobre lidar com o tempo como um recurso escasso, n&#227;o infinito. E, principalmente, aprendendo a lidar comigo mesmo: com minhas expectativas, minhas falhas, minha autocr&#237;tica exagerada.</p><p>A vida adulta n&#227;o &#233; sobre grandes decis&#245;es o tempo todo. &#201; sobre pequenas responsabilidades que nunca acabam. Lembrar de comprar sab&#227;o em p&#243;, marcar consulta, responder mensagem, fazer imposto de renda, ouvir algu&#233;m com aten&#231;&#227;o, manter promessas que voc&#234; fez para si mesmo. &#192;s vezes, &#233; justamente esse ac&#250;mulo de pequenas tarefas que pesa mais do que qualquer crise existencial.</p><p>Tem dias em que me sinto adulto de verdade. Organizado, presente, consciente. Pago contas, cozinho, arrumo a casa, resolvo o que precisa ser resolvido.</p><p>E tem outros dias em que acordo com a sensa&#231;&#227;o de que algu&#233;m se enganou ao me entregar essa vida. Como se eu fosse um estagi&#225;rio disfar&#231;ado de gerente. Como se eu estivesse escrevendo bilhetes internos para mim mesmo: &#8220;tenta n&#227;o esquecer de ser respons&#225;vel hoje&#8221;.</p><p>Existe tamb&#233;m a parte silenciosa da vida adulta, que ningu&#233;m comenta. O medo de decepcionar, o medo de n&#227;o ser suficiente, o medo de repetir padr&#245;es que eu prometi que nunca repetiria. O medo de fazer escolhas e descobrir tarde demais que elas n&#227;o eram t&#227;o boas assim. Crescer &#233; muito menos glamouroso do que parecia na teoria.</p><p>O homem adulto n&#227;o nasce pronto. Ele se forma na fric&#231;&#227;o. Na d&#250;vida. Na vergonha de errar. Na coragem de tentar de novo. Na responsabilidade de reconhecer que algumas coisas dependem s&#243; de voc&#234;, e no al&#237;vio de entender que outras n&#227;o dependem tanto assim.</p><p>Ainda estou aprendendo a ser adulto. A entender minhas limita&#231;&#245;es sem transform&#225;-las em senten&#231;a. A aceitar que nem sempre vou saber o que estou fazendo. A ser mais gentil comigo mesmo quando erro. A me orgulhar das pequenas vit&#243;rias, mesmo aquelas que ningu&#233;m v&#234;. A cuidar do meu agora com mais calma.</p><p>Crescer n&#227;o &#233; sobre performance. &#201; sobre presen&#231;a. &#201; sobre persistir. &#201; sobre tentar viver de um jeito que fa&#231;a sentido para quem eu sou hoje, n&#227;o para quem eu imaginava que seria aos trinta.</p><p>Talvez seja isso que ningu&#233;m me contou. A vida adulta n&#227;o &#233; o lugar onde voc&#234; chega pronto. &#201; o lugar onde voc&#234; se constr&#243;i enquanto tenta, falha, melhora e tenta de novo. Cada passo &#233; parte do processo. Cada d&#250;vida tamb&#233;m.</p><p>No fim das contas, ser adulto &#233; continuar mesmo sem ter certeza. E isso, por si s&#243;, j&#225; &#233; coragem suficiente.</p><div><hr></div><h3>&#128279; Indica&#231;&#245;es da semana</h3><p>&#127925; M&#250;sica - <a href="https://www.youtube.com/watch?v=tY7HQEZWUyc&amp;list=RDtY7HQEZWUyc&amp;start_radio=1">Ningu&#233;m - Chico Chico e Fran</a></p><p>&#127897;&#65039; Podcast - <a href="https://radionovelo.com.br/originais/apresenta/pense-pequeno/">Pense Pequeno - R&#225;dio Novelo Apresenta</a></p><div><hr></div><h2>&#9993;&#65039; <strong>Fechamento</strong></h2><p>Se esse texto te lembrou que ningu&#233;m est&#225; vivendo a vida com manual, j&#225; valeu.</p><p>Se trouxe alguma leveza no meio da cobran&#231;a que voc&#234; faz de si mesmo, melhor ainda.</p><p>E se voc&#234; chegou at&#233; aqui, obrigado.</p><p>Amadurecer &#233; dif&#237;cil, mas ler com calma tamb&#233;m &#233;.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://newsletter.mauricioackermann.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://newsletter.mauricioackermann.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Edição #4 — Meu amor e ódio por São Paulo]]></title><description><![CDATA[A cidade que me ensinou a correr &#8212; e que ainda n&#227;o me deixou parar.]]></description><link>https://newsletter.mauricioackermann.com/p/edicao-4-meu-amor-e-odio-por-sao</link><guid isPermaLink="false">https://newsletter.mauricioackermann.com/p/edicao-4-meu-amor-e-odio-por-sao</guid><dc:creator><![CDATA[Mauricio Ackermann]]></dc:creator><pubDate>Mon, 10 Nov 2025 10:01:25 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!lyAm!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3426d8fd-5d7e-48bb-8017-4d51891193fb.heic" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!lyAm!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3426d8fd-5d7e-48bb-8017-4d51891193fb.heic" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!lyAm!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3426d8fd-5d7e-48bb-8017-4d51891193fb.heic 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!lyAm!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3426d8fd-5d7e-48bb-8017-4d51891193fb.heic 848w, 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pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" 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A cidade me educou no barulho. No tr&#226;nsito da 23 de Maio, no motoboy costurando entre carros, no rel&#243;gio que nunca chega na hora, mas tamb&#233;m nunca atrasa de verdade.</p><p>Aprendi a amar o caos e odiar o barulho. A sentir falta do concreto quando vejo verde demais. A achar estranho quando o c&#233;u &#233; limpo por mais de tr&#234;s dias seguidos.<br>S&#227;o Paulo virou o meu padr&#227;o de ru&#237;do. Quando tudo est&#225; quieto demais, &#233; l&#225; que minha cabe&#231;a volta &#8212; como quem procura tr&#226;nsito pra se sentir vivo.</p><p>Por muito tempo, eu achei que S&#227;o Paulo era o &#250;nico lugar poss&#237;vel de viver.<br>Como se tudo que importasse acontecesse ali, naquele ritmo, naquele excesso.<br>A cidade me dava a sensa&#231;&#227;o de estar sempre no centro das coisas &#8212; mesmo quando eu n&#227;o fazia parte de nada. Era o tipo de lugar que te convence de que o mundo inteiro cabe dentro dela. E por um tempo, eu acreditei nisso.</p><p>Mas morar em Toronto me mostrou que o mundo tamb&#233;m pode existir fora do barulho. N&#227;o que seja uma cidade calma &#8212; n&#227;o &#233;. Toronto tamb&#233;m &#233; cheia, viva, agitada. Mas ali existe espa&#231;o pra respirar. H&#225; verde entre os pr&#233;dios, arte nas esquinas, m&#250;sica tocando na rua sem pressa. &#201; uma cidade que se move, mas que deixa o corpo acompanhar. L&#225;, ningu&#233;m mede o valor da vida pela correria &#8212; e, no come&#231;o, achei tudo parado demais. Depois percebi que talvez o que estivesse acelerado demais era eu.</p><p>S&#227;o Paulo &#233; intensa. A vida noturna pulsa, as ruas brilham, os bares lotam at&#233; tarde.<br>A cidade &#233; viva &#8212; mas tamb&#233;m exaustiva.<br>As conversas s&#227;o boas, mas curtas.<br>Os encontros s&#227;o cheios, mas raramente duram.<br>&#201; uma cidade que te d&#225; tudo, mas te tira o tempo de sentir o que recebeu.<br>A vida em S&#227;o Paulo &#233; maravilhosa &#8212; e, ao mesmo tempo, vazia e ef&#234;mera.</p><p>Tem dias em que eu ou&#231;o o Criolo e entendo perfeitamente: &#8220;n&#227;o existe amor em SP&#8221;.<br>&#201; como se o concreto tivesse engolido toda ternura poss&#237;vel.<br>Mas em outros dias, basta cruzar uma esquina pra sentir o que o Caetano chamou de <em>&#8220;a dura poesia concreta de suas esquinas.&#8221;</em><br>Porque S&#227;o Paulo, apesar de tudo, tem essa capacidade estranha de te machucar e te acolher ao mesmo tempo.<br>&#201; uma cidade que nunca te deixa indiferente.</p><p>Eu tenho um amor e &#243;dio por essa cidade que me formou.<br>Porque foi nela que aprendi tudo o que mais me ajudou e tudo o que mais me ferrou.<br>Foi ali que aprendi a trabalhar, mas tamb&#233;m a n&#227;o desligar.<br>Aprendi a correr atr&#225;s, mas nunca soube parar.<br>Aprendi a conquistar espa&#231;o, mas &#224;s vezes me sinto pequeno at&#233; hoje.</p><p>S&#227;o Paulo &#233; uma cidade que cobra presen&#231;a.<br>Mesmo quando voc&#234; est&#225; longe, ela te cutuca: &#8220;e a&#237;, n&#227;o vai fazer nada?&#8221;.<br>&#201; uma cidade que te treina pra estar em alerta, e depois te pune por n&#227;o conseguir relaxar. Ela te ensina a resolver tudo &#8212; menos a pr&#243;pria saudade.</p><p>Tem dias em que eu sinto falta do caos.<br>Do barulho do &#244;nibus, do cheiro de pastel com diesel, da padaria com fila e pressa.<br>De andar r&#225;pido por ruas que eu j&#225; n&#227;o lembro o nome, mas cujo ritmo ainda dita o meu passo.<br>E tem outros dias em que s&#243; de lembrar da Marginal &#224;s seis da tarde me d&#225; dor de cabe&#231;a.</p><p>S&#227;o Paulo &#233; uma ex que ainda me manda mensagem de madrugada.<br>&#192;s vezes eu abro. &#192;s vezes ignoro.<br>Mas nunca apago a conversa.</p><p>Ela &#233; a cidade que mais me deu &#8212; e a que mais me cobrou.<br>Me ensinou a sonhar grande, mas tamb&#233;m a n&#227;o ter tempo pra sonhar direito.<br>&#201; a cidade que me fez querer ir embora, mas que sempre me d&#225; vontade de voltar, como quem sente falta da pr&#243;pria loucura.</p><p>No fim, acho que meu amor por S&#227;o Paulo &#233; o mesmo tipo de amor que a gente tem por algumas pessoas: as que nos ensinaram a ser fortes, mas &#224;s custas da leveza.<br>A cidade que me ensinou a correr &#8212; e que ainda n&#227;o me deixou parar.</p><div><hr></div><h3>&#128279; Indica&#231;&#245;es da semana</h3><p>&#127760; <strong>Comunidade &#8212; <a href="https://www.reddit.com/r/saopaulo/">r/saopaulo</a> (Reddit)</strong><br>Um canto curioso da internet onde paulistanos e ex-paulistanos vivem a mesma contradi&#231;&#227;o: amar e odiar a cidade todos os dias.<br>L&#225;, entre reclama&#231;&#245;es de tr&#226;nsito, fotos de c&#233;u alaranjado e discuss&#245;es sobre p&#227;o na chapa, voc&#234; percebe que S&#227;o Paulo &#233; feita disso mesmo &#8212; de gente cansada, mas ainda apaixonada.</p><div><hr></div><h3>&#9993;&#65039; Fechamento</h3><p>Se esse texto te fez lembrar de uma esquina, um cheiro ou um barulho, j&#225; valeu.<br>Se te deu vontade de voltar &#8212; ou de n&#227;o voltar nunca mais &#8212; melhor ainda.<br>E se voc&#234; chegou at&#233; aqui, obrigado.<br>Nos tempos de hoje, parar pra ler j&#225; &#233; um ato de resist&#234;ncia &#8212; paulistana ou n&#227;o.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://newsletter.mauricioackermann.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://newsletter.mauricioackermann.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Edição #3 - A obrigação de ter opinião]]></title><description><![CDATA[e o medo de ficar de fora da conversa]]></description><link>https://newsletter.mauricioackermann.com/p/edicao-3-a-obrigacao-de-ter-opiniao</link><guid isPermaLink="false">https://newsletter.mauricioackermann.com/p/edicao-3-a-obrigacao-de-ter-opiniao</guid><dc:creator><![CDATA[Mauricio Ackermann]]></dc:creator><pubDate>Mon, 03 Nov 2025 19:21:13 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!DDwI!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffe77eaf5-f2ee-4b1c-b0eb-20b735f37fab_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>&#192;s vezes eu tenho a sensa&#231;&#227;o de que o mundo inteiro virou um grande debate de mesa-bar, s&#243; que sem a cerveja. Todo dia tem um assunto novo que exige opini&#227;o urgente: pol&#237;tica, cinema, intelig&#234;ncia artificial, alimenta&#231;&#227;o, a nova s&#233;rie da Netflix.</p><p>E eu, que mal sei o que quero jantar, preciso decidir se sou a favor ou contra tudo &#8212; em tempo real.</p><p>Hoje em dia, ficar em sil&#234;ncio parece suspeito. Se voc&#234; n&#227;o comenta, &#233; omisso. Se voc&#234; demora, &#233; covarde. Se voc&#234; muda de ideia, &#233; incoerente. O mundo quer opini&#227;o &#8212; e quer r&#225;pido. E quando eu n&#227;o tenho nada pra dizer, invento.</p><p>A internet transformou a d&#250;vida em fraqueza. Todo mundo precisa saber, o tempo todo, o que pensa sobre tudo. E se n&#227;o pensa, copia. A timeline virou uma competi&#231;&#227;o de quem parece mais l&#250;cido, mais informado, mais consciente. A &#250;nica coisa que n&#227;o pode &#233; parecer perdido.</p><p>E no meio de tudo isso, tem o medo. O <em>FOMO</em>, o medo de perder algo &#8212; a conversa do momento, o meme, o debate, o ponto de vista certo. &#201; o medo de ficar de fora, de parecer desatualizado, de n&#227;o ter nada a acrescentar. Ent&#227;o a gente corre pra participar, mesmo que n&#227;o saiba direito do qu&#234;.</p><p>O problema &#233; que ter opini&#227;o virou um trabalho em tempo integral. Eu me pego pesquisando, lendo, comparando fontes &#8212; e quando finalmente entendo o assunto, o mundo j&#225; mudou de pauta. &#201; como estudar pra uma prova que nunca acontece.</p><p>Tem dias em que eu s&#243; quero poder dizer &#8220;n&#227;o sei&#8221; sem parecer pregui&#231;oso. Ou &#8220;ainda n&#227;o pensei sobre isso&#8221; sem soar alienado. Mas a gente vive num tempo em que o sil&#234;ncio &#233; interpretado como desinteresse, e a pausa como desist&#234;ncia.</p><p>A verdade &#233; que eu nem sei se quero ter opini&#227;o sobre tudo. &#192;s vezes s&#243; quero assistir em paz. Ver um filme sem precisar saber o que ele significa. Ler uma not&#237;cia sem precisar decidir de que lado estou. Tomar um caf&#233; sem transformar o caf&#233; em met&#225;fora social.</p><p>Sinto falta de quando o pensamento era uma coisa &#237;ntima &#8212; n&#227;o um produto. Hoje ele precisa ser public&#225;vel, post&#225;vel, compartilh&#225;vel. O que n&#227;o &#233; dito n&#227;o existe, e o que n&#227;o engaja n&#227;o importa.</p><p>E eu tamb&#233;m caio nessa. Me pego moldando frases pra parecer inteligente, ou postando s&#243; pra n&#227;o ficar calado. &#201; uma mania de quem tem medo de sumir do mapa se n&#227;o disser nada.</p><p>O mais curioso &#233; que, no fundo, todo mundo est&#225; cansado. Cansado de discutir, de defender, de explicar, de parecer sempre t&#227;o certo. Cansado de raciocinar em p&#250;blico.</p><p>Pensar em sil&#234;ncio virou um luxo &#8212; e o erro, uma amea&#231;a. O tempo de processar foi engolido pelo tempo de reagir. O espa&#231;o da d&#250;vida virou intervalo comercial.</p><p>Talvez o que falte n&#227;o sejam opini&#245;es, mas sil&#234;ncio. Aquele tempo entre uma pergunta e a resposta, quando o pensamento ainda est&#225; sendo formado. O intervalo que a pressa digital engoliu.</p><p>Eu queria reaprender a pensar devagar. A conversar sem performar. A ouvir sem preparar a r&#233;plica. Porque se tudo &#233; opini&#227;o, nada &#233; reflex&#227;o.</p><p>E o mundo j&#225; est&#225; cheio de gente que fala demais e escuta de menos.</p><div><hr></div><h3>&#128279; Indica&#231;&#245;es da semana</h3><p>&#128216; <strong>Leitura:</strong> <em><a href="https://brasil.elpais.com/smoda/2020-05-31/o-alivio-e-a-paz-mental-de-nao-ter-de-opinar-sobre-tudo.html">O al&#237;vio (e a paz mental) de n&#227;o ter de opinar sobre tudo</a></em></p><div><hr></div><h3>&#9993;&#65039; Fechamento</h3><p>Se esse texto te deu vontade de pensar em sil&#234;ncio por alguns minutos, j&#225; valeu.<br>Se te deu vontade de n&#227;o ter opini&#227;o sobre nada hoje, melhor ainda.<br>E se voc&#234; chegou at&#233; aqui, obrigado.<br>Num mundo em que todo mundo fala ao mesmo tempo, ler at&#233; o fim j&#225; &#233; um gesto de gentileza.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://newsletter.mauricioackermann.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://newsletter.mauricioackermann.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Edição #2 — A pressa de chegar a lugar nenhum]]></title><description><![CDATA[Um texto sobre viver r&#225;pido demais, sentir culpa ao parar e a dificuldade de habitar o tempo em vez de correr atr&#225;s dele.]]></description><link>https://newsletter.mauricioackermann.com/p/edicao-2-a-pressa-de-chegar-a-lugar</link><guid isPermaLink="false">https://newsletter.mauricioackermann.com/p/edicao-2-a-pressa-de-chegar-a-lugar</guid><dc:creator><![CDATA[Mauricio Ackermann]]></dc:creator><pubDate>Mon, 27 Oct 2025 19:23:24 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!DDwI!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffe77eaf5-f2ee-4b1c-b0eb-20b735f37fab_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Acho que a minha pressa nasceu em S&#227;o Paulo. Aprendi cedo que quem anda devagar atrapalha a cal&#231;ada, e que quem fica parado na esquerda da escada rolante atrasa a vida de todo mundo. Que o tempo &#233; curto, que o metr&#244; lota, que a vida &#233; urgente. Mais tarde, fui morar em Toronto, e percebi que, mesmo do outro lado do continente, o ritmo era o mesmo. Duas cidades diferentes, o mesmo rel&#243;gio apressado.</p><p>E eu virei esse rel&#243;gio. Mesmo quando n&#227;o h&#225; motivo, eu continuo acelerado. Chego num ponto tur&#237;stico e j&#225; penso no pr&#243;ximo. Termino um texto e j&#225; quero escrever outro. Acabo de comer e j&#225; quero pedir a conta. Tenho dificuldade de esperar. Mas essa pressa toda &#233; pra qu&#234;? &#201; como se o corpo estivesse sempre em tr&#226;nsito, e a cabe&#231;a, sempre com medo de perder o pr&#243;ximo trem.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://newsletter.mauricioackermann.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler A Vida de Quem Pensa Demais! Assine gratuitamente para receber novos posts e apoiar meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Vivemos numa cultura que transformou o verbo <em>acelerar</em> em elogio. Quem tem pressa parece determinado, ambicioso, eficiente. Mas, no fundo, a maioria de n&#243;s s&#243; est&#225; tentando fugir da ang&#250;stia de n&#227;o ter controle sobre o tempo.</p><p>Eu sei disso. E mesmo assim n&#227;o consigo parar. A sensa&#231;&#227;o de estar parado me d&#225; culpa, como se a vida fosse uma fila e eu tivesse deixado algu&#233;m me passar. E o mais curioso &#233; que, mesmo quando eu chego, n&#227;o sinto que cheguei. O prazer de concluir dura segundos. Logo vem o vazio e o impulso de ir de novo. &#192;s vezes eu me pego tentando &#8220;ganhar tempo&#8221;, como se fosse poss&#237;vel guardar horas pra depois. E no fim, o tempo que eu ganho &#233; o mesmo que eu perco, correndo pra chegar a lugar nenhum.</p><p>A pressa &#233; o jeito que eu encontrei de n&#227;o encarar o sil&#234;ncio. Enquanto corro, n&#227;o preciso pensar se estou feliz. Enquanto avan&#231;o, n&#227;o preciso me perguntar se quero mesmo chegar. O movimento me protege, mas tamb&#233;m me cansa.</p><p>A gente aprendeu a medir o valor das coisas pelo ritmo. Comer r&#225;pido, responder r&#225;pido, aprender r&#225;pido, amar r&#225;pido, superar r&#225;pido. Tudo precisa caber no cronograma, at&#233; o prazer. Mas tem coisas que s&#243; acontecem quando a gente demora: um afeto que amadurece, uma ideia que precisa de t&#233;dio, um descanso que realmente descansa.</p><p>O problema &#233; que a vida real n&#227;o respeita prazos. E, por mais que a gente corra, ela continua vindo no tempo dela, devagar, meio confusa, sem aviso.</p><p>Eu gosto da met&#225;fora de que vivemos como se estiv&#233;ssemos sempre <em>entre voos</em>. Sempre com pressa de embarcar no pr&#243;ximo. A pr&#243;xima fase, o pr&#243;ximo projeto, o pr&#243;ximo corpo, o pr&#243;ximo &#8220;eu melhorado&#8221;. Mas ningu&#233;m nos ensinou o que fazer enquanto o voo atrasa.</p><p>A sensa&#231;&#227;o de espera virou intoler&#225;vel. O intervalo, que deveria ser um respiro, virou ansiedade. A gente olha o rel&#243;gio, a barra de progresso, a notifica&#231;&#227;o, o espelho, e pensa: <em>j&#225; era pra eu estar em outro lugar.</em></p><p>O curioso &#233; que ningu&#233;m sabe onde esse &#8220;outro lugar&#8221; fica. A pressa &#233; um GPS com o destino apagado. A gente segue a rota, mas o mapa &#233; um labirinto. Talvez por isso o cansa&#231;o moderno seja t&#227;o estranho: n&#227;o &#233; s&#243; f&#237;sico, &#233; o cansa&#231;o de quem est&#225; sempre no meio do caminho, e nunca chega.</p><p>E, claro, a internet n&#227;o ajuda. A gente vive cercado por vidas editadas, timelines que avan&#231;am, gente que parece &#8220;adiantada&#8221;, e d&#225; aquela sensa&#231;&#227;o de que voc&#234; ficou pra tr&#225;s, mesmo sem saber de qu&#234;. &#201; o novo tipo de inveja: a inveja cronol&#243;gica.</p><p>Outro dia ouvi algu&#233;m dizer que &#8220;a vida &#233; curta demais pra ser pequena&#8221;. Discordo. A vida &#233; curta demais pra ser vivida com pressa. A pressa rouba o gosto das coisas, o intervalo entre um gole e outro, a pausa antes da resposta. &#201; no tempo estendido que o significado aparece.</p><p>E eu queria muito aprender a viver nesse tempo, mas ainda n&#227;o consigo. Ainda sou o cara que anda r&#225;pido demais, fala r&#225;pido demais, pensa r&#225;pido demais. E tudo que essa pressa me d&#225; &#233; a sensa&#231;&#227;o constante de estar um pouco atrasado.</p><p>Talvez o desafio n&#227;o seja &#8220;ter tempo&#8221;, mas <em>habitar o tempo.</em> Aprender a existir dentro dele, n&#227;o contra ele. Respeitar o ritmo do corpo, das rela&#231;&#245;es, das ideias. Eu n&#227;o aprendi isso ainda. Mas acho que &#233; por isso que escrevo: pra ver se, enquanto penso sobre o tempo, eu consigo parar por alguns minutos e realmente estar aqui.</p><div><hr></div><h3>&#128279; Indica&#231;&#245;es da semana</h3><p>&#9654;&#65039; <strong>V&#237;deo:</strong></p><div id="youtube2-dY2sJxCW6WQ" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;dY2sJxCW6WQ&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/dY2sJxCW6WQ?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><div><hr></div><h3>&#9993;&#65039; Fechamento</h3><p>Se esse texto te fez diminuir o passo, nem que fosse s&#243; por alguns minutos, j&#225; valeu.<br>Se te deu vontade de respirar antes de correr de novo, melhor ainda.<br>E se voc&#234; chegou at&#233; aqui, obrigado.<br>Num mundo que anda r&#225;pido demais, ler at&#233; o fim j&#225; &#233; um tipo de coragem.</p><p>At&#233; semana que vem,<br><strong>Maur&#237;cio</strong></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://newsletter.mauricioackermann.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler A Vida de Quem Pensa Demais! Assine gratuitamente para receber novos posts e apoiar meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Edição #1 - O tédio que a gente não permite]]></title><description><![CDATA[Outro dia, percebi que n&#227;o sei mais ficar entediado.]]></description><link>https://newsletter.mauricioackermann.com/p/edicao-1-o-tedio-que-a-gente-nao</link><guid isPermaLink="false">https://newsletter.mauricioackermann.com/p/edicao-1-o-tedio-que-a-gente-nao</guid><dc:creator><![CDATA[Mauricio Ackermann]]></dc:creator><pubDate>Mon, 20 Oct 2025 13:49:51 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!DDwI!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffe77eaf5-f2ee-4b1c-b0eb-20b735f37fab_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Outro dia, percebi que n&#227;o sei mais ficar entediado. N&#227;o &#233; que eu esteja sempre ocupado, &#233; que, quando n&#227;o estou, invento alguma coisa pra ocupar.<br>Abro o celular, checo um e-mail que j&#225; sei que n&#227;o chegou, jogo uma partida de Sudoku, passo o dedo na tela como quem procura um sentido, e, quando vejo, mais meia hora se foi.</p><p>&#201; curioso: a gente diz que quer paz, mas quando ela aparece, d&#225; nervoso.<br>O sil&#234;ncio parece erro, o tempo livre parece amea&#231;a.<br>O t&#233;dio virou um tipo de vazio que a gente preenche no reflexo, como quem tapa um buraco na parede com qualquer coisa que sobrou na m&#227;o.</p><p>Antigamente, o t&#233;dio era uma pausa.<br>Hoje ele &#233; um bug.</p><p>Vivemos num mundo que transformou <em>toda aus&#234;ncia de est&#237;mulo em sinal de falha</em>.<br>Se n&#227;o estamos produzindo, estamos perdendo tempo.<br>Se n&#227;o estamos aprendendo, estamos ficando pra tr&#225;s.<br>Se n&#227;o estamos curtindo, postando, comprando, reagindo, parece que algo est&#225; errado.</p><p>Mas o t&#233;dio &#233; exatamente o contr&#225;rio disso.<br>Ele &#233; o espa&#231;o onde as coisas voltam a fazer sentido.<br>Quando nada acontece, o c&#233;rebro finalmente tem chance de conversar com ele mesmo.<br>E &#233; a&#237; que aparecem as ideias, as mem&#243;rias, os inc&#244;modos, as vontades, tudo aquilo que o barulho di&#225;rio mant&#233;m abafado.</p><p>A ironia &#233; que a maioria das nossas &#8220;grandes ideias&#8221; nasceu em momentos de t&#233;dio.<br>Na fila do banco. No banho. No tr&#226;nsito.<br>Naqueles instantes em que o corpo t&#225; preso e a cabe&#231;a, livre.<br>S&#243; que agora, em vez de pensar, a gente rola a tela. Assiste a um corte ou a um TikTok.<br>E quando o pensamento come&#231;a a surgir, vem a notifica&#231;&#227;o &#8212; e l&#225; se foi a chance de descobrir alguma coisa nova sobre si mesmo.</p><p>Talvez o problema n&#227;o seja o t&#233;dio, mas o medo de ficar sozinho com a pr&#243;pria mente. <br>Porque ela fala &#8212; e fala alto.<br>E &#224;s vezes diz coisas que a gente n&#227;o quer ouvir.</p><p>Ficar parado &#233; perigoso.<br>Pode te fazer perceber que aquele trabalho te esgota.<br>Que aquela rotina n&#227;o te serve mais.<br>Que voc&#234; est&#225; se mantendo ocupado pra n&#227;o encarar o que incomoda.<br>Ou simplesmente que voc&#234; n&#227;o sabe o que quer,  e admitir isso &#233; um pequeno colapso existencial.</p><p>Ent&#227;o a gente evita.<br>Enche a agenda, o feed, o fim de semana, o calend&#225;rio.<br>Finge que &#233; falta de tempo, mas &#233; medo de sil&#234;ncio. </p><p>Outro dia, fiquei dez minutos sem fazer nada.<br>De prop&#243;sito.<br>Deitei no sof&#225;, deixei o celular na outra sala e encarei o teto.<br>No come&#231;o, foi horr&#237;vel.<br>Senti vontade de levantar, de mexer em algo, de &#8220;aproveitar melhor o tempo&#8221;.<br>Mas depois veio um tipo estranho de al&#237;vio, como se o corpo dissesse: &#8220;at&#233; que enfim&#8221;.</p><p>N&#227;o aconteceu nada de extraordin&#225;rio.<br>N&#227;o tive uma epifania, n&#227;o inventei uma startup, n&#227;o me iluminei.<br>Mas quando levantei, senti que estava um pouco mais presente.<br>E talvez seja isso que o t&#233;dio faz: devolve a gente pro agora.</p><p>A verdade &#233; que a vida n&#227;o &#233; feita de picos.<br>A maior parte dos nossos dias &#233; morna &#8212; e tudo bem.<br>S&#243; que a gente foi treinado pra achar que &#8220;morno&#8221; &#233; fracasso.<br>Queremos sentir sempre algo grandioso: amor intenso, sucesso mete&#243;rico, prazer imediato, produtividade absurda.<br>Mas ningu&#233;m aguenta viver em alta voltagem o tempo todo.<br>O t&#233;dio &#233; o sil&#234;ncio entre as notas que permite a melodia existir.</p><p>Se voc&#234; acha que sua vida anda sem gra&#231;a, talvez ela s&#243; esteja em repouso.<br>E repouso n&#227;o &#233; vazio, &#233; solo f&#233;rtil.<br>&#201; ali que as ideias criam raiz, que o corpo descansa, que a mente se reorganiza.</p><p>Nos venderam a ideia de que &#8220;viver bem&#8221; &#233; ter uma vida interessante.<br>Mas talvez o segredo seja ter uma vida <em>habit&#225;vel</em>.<br>E pra isso, o t&#233;dio n&#227;o &#233; o inimigo, &#233; o alicerce.<br>Ele &#233; o que separa o prazer da compuls&#227;o, o movimento da fuga, o sil&#234;ncio da aus&#234;ncia.</p><p>N&#227;o &#233; f&#225;cil. Ficar em paz exige pr&#225;tica. Mas da pr&#243;xima vez que o t&#233;dio bater, tenta n&#227;o correr dele. Senta junto. Falho com frequ&#234;ncia, ainda assim, olha pra ele como quem olha pra uma visita antiga que voltou sem avisar. Ele pode trazer not&#237;cias.</p><div><hr></div><h2>&#128279; Indica&#231;&#227;o da semana</h2><p> &#9654;&#65039; <strong>V&#237;deo:</strong> </p><div id="youtube2-LKPwKFigF8U" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;LKPwKFigF8U&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/LKPwKFigF8U?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><p><br>&#128216; <strong>Leitura:</strong> <em><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-64046582">Por que o t&#233;dio pode ser bom para o c&#233;rebro, BBC News</a></em></p><div><hr></div><h2>&#9993;&#65039; Fechamento</h2><p>Se esse texto te deu vontade de desligar por um tempo, j&#225; valeu.<br>Se te deu vontade de pensar em sil&#234;ncio, melhor ainda.<br>E se voc&#234; chegou at&#233; aqui, obrigado.<br>Nos tempos que correm, ler com calma j&#225; &#233; um ato de resist&#234;ncia.</p><p>At&#233; semana que vem,<br><strong>Maur&#237;cio</strong></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://newsletter.mauricioackermann.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://newsletter.mauricioackermann.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Edição #0 - Por que eu resolvi começar isso]]></title><description><![CDATA[Faz tempo que eu tenho vontade de criar algo.]]></description><link>https://newsletter.mauricioackermann.com/p/edicao-0-por-que-eu-resolvi-comecar</link><guid isPermaLink="false">https://newsletter.mauricioackermann.com/p/edicao-0-por-que-eu-resolvi-comecar</guid><dc:creator><![CDATA[Mauricio Ackermann]]></dc:creator><pubDate>Mon, 13 Oct 2025 16:26:24 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!DDwI!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffe77eaf5-f2ee-4b1c-b0eb-20b735f37fab_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Faz tempo que eu tenho vontade de criar algo.<br>N&#227;o um projeto gigantesco, nem uma nova empresa, nem mais um side hustle com planilha no Notion e metas imposs&#237;veis.<br>S&#243; algo meu. Um espa&#231;o pra pensar, ou pelo menos, pra tentar entender por que eu penso tanto.</p><p>Eu passei boa parte da vida resolvendo problemas pr&#225;ticos: c&#243;digo que n&#227;o compila, banco de dados lento, time sobrecarregado, prazos que n&#227;o fazem sentido.<br>E, no meio disso tudo, percebi que o problema mais dif&#237;cil de resolver &#233; o que n&#227;o tem ticket no Jira: <strong>o que a gente faz com o tanto de coisa que sente e pensa enquanto a vida acontece?</strong></p><p>Essa newsletter nasce da&#237;.<br>De uma inquieta&#231;&#227;o que n&#227;o cabe num tweet, nem num papo r&#225;pido no bar.<br>De uma vontade de escrever pra ver se organizo o caos, ou pelo menos dou nomes aos ru&#237;dos.</p><p>Nos &#250;ltimos anos, eu reparei que a gente anda vivendo no modo autom&#225;tico da performance.<br>Acorda, corre, trabalha, finge que t&#225; tudo bem, marca um happy hour, posta uma foto pra provar que ainda tem vida social, e volta pra casa exausto.<br>Mas o pior n&#227;o &#233; o cansa&#231;o f&#237;sico. &#201; o <strong>cansa&#231;o mental de ter que ser algu&#233;m o tempo todo.</strong></p><p>Ser produtivo, ser saud&#225;vel, ser interessante, ser tranquilo, ser bem resolvido.<br>Tudo junto. Tudo agora. E eu comecei a me perguntar:<br><strong>Quando &#233; que a gente virou um produto de n&#243;s mesmos?</strong></p><p>Essa n&#227;o &#233; uma newsletter de autoajuda.<br>N&#227;o tenho respostas e, sinceramente, desconfio de quem tem.<br>Mas acho que d&#225; pra conversar sobre o que &#233; estar vivo sem precisar transformar tudo em li&#231;&#227;o.</p><p>Aqui, eu quero escrever sobre as contradi&#231;&#245;es do cotidiano:<br>a culpa de n&#227;o estar fazendo o suficiente, o medo de perder o controle, o prazer simples de um chopp bem tirado com um colarinho cremoso, o t&#233;dio que a gente n&#227;o se permite, o corpo que muda e a cabe&#231;a que n&#227;o acompanha.</p><p>Quero falar de tecnologia sem o culto ao &#8220;futuro&#8221;.<br>De trabalho sem aquela fantasia de prop&#243;sito.<br>De envelhecer sem fingir que &#233; s&#243; mais uma fase.<br>E, principalmente, de como a gente tenta dar conta de ser tanta coisa num mundo que nunca para.</p><p>O nome, <em>A Vida de Quem Pensa Demais</em>, &#233; quase uma provoca&#231;&#227;o pessoal.<br>Porque pensar demais &#233; exaustivo, mas tamb&#233;m &#233; o que me mant&#233;m vivo.<br>Eu sou o tipo de pessoa que entra no banho pensando numa conversa que teve h&#225; tr&#234;s dias e sai com uma ideia de neg&#243;cio nova.<br>N&#227;o sei desligar.<br>Ent&#227;o, se n&#227;o d&#225; pra parar o c&#233;rebro, que pelo menos eu aprenda a deixar ele trabalhar a meu favor.</p><p>Escrever, pra mim, &#233; um jeito de desacelerar.<br>De transformar pensamento em texto, e texto em algum tipo de companhia &#8212; pra mim e, talvez, pra quem ler.</p><p>N&#227;o prometo const&#226;ncia militar nem profundidades filos&#243;ficas.<br>Prometo textos curtos (ou nem tanto), honestos, e provavelmente um pouco contradit&#243;rios, at&#233; porque eu tamb&#233;m sou.<br>Algumas semanas v&#227;o soar leves, outras mais densas.<br>Alguns textos v&#227;o nascer de uma conversa de bar, outros de uma ins&#244;nia.<br>Todos v&#227;o nascer de um inc&#244;modo real.</p><p>Se tudo der certo, essa newsletter vai ser um espa&#231;o pra respirar.<br>Pra rir um pouco da pr&#243;pria confus&#227;o.<br>Pra lembrar que pensar demais n&#227;o &#233; defeito, &#233; s&#243; sinal de que a vida ainda t&#225; passando por dentro, e n&#227;o por fora.</p><p>Se quiser me acompanhar, &#233; s&#243; assinar.<br>Toda semana, um texto novo. &#192;s vezes sobre nada em particular, mas quase sempre sobre o tipo de coisa que a gente sente e finge que n&#227;o tem tempo pra sentir.</p><p><br><strong>Maur&#237;cio</strong></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://newsletter.mauricioackermann.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://newsletter.mauricioackermann.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item></channel></rss>